
O dia 1º de março é reconhecido como o Dia do Milagre na cidade de Juazeiro do Norte. A data histórica marca a primeira vez em que ocorreu a transformação da hóstia em sangue, no momento em que o Padre Cícero ofereceu a comunhão à Beata Maria de Araújo. O episódio, ocorrido em 1889, mudou os rumos do então pequeno povoado, conhecido como Tabuleiro Grande, transformando-o, ao longo dos anos, em uma cidade que se tornaria um dos maiores centros de religiosidade popular do Nordeste.
Mulher negra, pobre e profundamente religiosa, Maria integrava o apostolado com o desejo de seguir a vida consagrada. O acontecimento de 1889, alterou não apenas sua trajetória, mas também a dinâmica social e econômica da região. O momento provocou comoção entre os presentes e repercutiu rapidamente além das fronteiras daquele povoado, resultando, ainda naquele ano, na primeira romaria em Juazeiro do Norte.
De acordo com o historiador Roberto Júnior, o 1º de março representa um divisor de águas na história local. "É certamente uma das datas mais importantes da nossa trajetória. O milagre eucarístico ocorrido na boca da beata Maria de Araújo mudou o destino da cidade. A partir dali, Juazeiro passou a receber romarias e consolidou-se como polo de fé e devoção popular", afirma. Para ele, o episódio evidencia também a força da religiosidade nordestina, que se mantém viva independentemente de reconhecimentos institucionais.
O chamado "milagre da hóstia" também foi cercado de diversas discussões em um contexto de tensão entre experiências místicas e o posicionamento oficial da Igreja Católica. Após investigações, a Igreja decidiu não reconhecer o milagre e determinou o silenciamento em torno da beata. A partir de 1894, documentos, objetos e registros ligados a Maria de Araújo teriam sido destruídos, e manifestações públicas de fé em seu nome passaram a sofrer restrições.
Dezesseis anos após sua morte, o túmulo de Maria de Araújo, na Capela do Perpétuo Socorro, foi violado na madrugada de 22 de outubro de 1930, e seus restos mortais desapareceram, permanecendo até hoje com paradeiro desconhecido. O episódio é apontado como mais uma tentativa de silenciamento da beata, que já havia passado duas décadas de reclusão e marginalização, reforçando o caráter controverso e simbólico de sua trajetória na história religiosa de Juazeiro do Norte.